1. Introdução
Muito se fala de observações realizadas a partir da Terra com instrumentos muito grandes, com aberturas ou diâmetros de até cinco metros. Hoje estão em funcionamento telescópios com 10 metros de abertura. Outras observações são feitas com a ajuda de satélites. Todas estas observações utilizam uma instrumentação sofisticada que está fora do alcance do astrônomo amador.
Para apreciar estas fotos e imagens, precisamos de um outro instrumento que faz parte de nós mesmos e que tem uma abertura de apenas três milímetros - menos de um centésimo da abertura dos grandes instrumentos: o olho.
Somente o olho humano nos permite admirar todas estas belezas do céu. Assim sendo, pode-se dizer, sem exagero, que o olho é o instrumento astronômico mais importante do qual nós dispomos. Através dele nós podemos ver estrelas, o Sol, a Lua, etc. Mas sem os nossos olhos, nós nem poderíamos apreciar as maravilhosas fotos feitas com os grandes instrumentos.
Durante a minha vida profissional, como engenheiro, eu viajava muito. Estava fora de casa por semanas. Não era possível levar um instrumento astronômico comigo. Assim era impossível participar de um programa de observação sistemática. Por isso comecei a procurar um programa de observação que não precisasse de instrumentação especial e que fosse possível de realizar durante as viagens. Finalmente encontrei um artigo escrito por Hans Ulrich Keller na revista ORION (número 181, dezembro 1980) da Sociedade Astronômica da Suíça.
Que manchas solares são visíveis a olho nu é um fato bem conhecido. As observações registradas (quer dizer encontradas) mais velhas vêm da China e datam de 17 séculos. Os chineses comparam os tamanhos das manchas com ameixas, tâmaras, pêssegos, pêras, nozes ou ovos de galinha. Tudo isso é comestível. Mas supor que os astrônomos chineses sempre observavam quando tinham fome certamente não é justo nem é lógico. Além disso, cada um dos objetos citados, quando postos com o braço esticado, cobrem largamente o Sol inteiro. Como funciona então a comparação? Podemos admitir com boa razão que eles comparavam o tamanho do Sol com uma bacia chinesa que tem um diâmetro de cerca de um metro. Assim estes objetos dão proporções razoáveis das manchas solares. A observação só era possível quando o Sol ficava “filtrado” pela poeira do deserto ou pela neblina.
2. O método atual de observaçõesCada dia possível se observa o Sol. Não importa em qual momento. Assim, pode-se aproveitar a abertura nas nuvens, mesmo em tempo nublado. A observação pode ser feita de qualquer lugar: em casa, na rua, no trabalho, etc. É indispensável o uso de um bom filtro. O mais simples é um filme 35 mm preto e branco exposto e revelado. Não usar filme colorido ou vidro enegrecido com uma vela. Outro filtro possível, e muito prático, é o vidro de soldador número 14. O filtro deve ter uma densidade de aproximadamente 5. Conta-se e anota-se a quantidade de manchas visíveis, sem esquecer de anotar também ZERO quando não se vê mancha nenhuma. Assim obtém-se o número A diário. Não é necessário estimar o tamanho das manchas.
Nossa experiência ensina que a expectativa do observador inexperiente tem grande influência na detectação das manchas. Normalmente ele percebe um número bem menor do que o observador experiente. Os não habituados esperam encontrar manchas enormes, quando na verdade elas aparecem como pontinhos negros.
O tratamento estatístico das observações é muito simples. Para cada mês, uma média mensal MA é calculada dividindo-se a soma de todas as manchas do mês pelo número de observações:
As flutuações diárias e mensais são bastante grandes, de modo que um processo de alisar precisa ser adotado. Para se poder comparar esta média alisada com o número de manchas de Zürich (RZH), a média deve ser feita sobre o mesmo período de tempo, quer dizer, sobre 13 meses (R13). A seguinte fórmula foi adotada por Keller:

Comecei a observar sistematicamente o Sol com o olho nu em fevereiro de 1981.
A figura 1 mostra o resultado destes 15 anos de observações feitas por mim
mesmo. A linha fina dá a média mensal MA, e a linha grossa a média alisada de MA
. Podemos ver três fatos interessantes:
Figura 1
4. Concordância com observações telescópicas
Comparo os meus resultados com aqueles da atual rede de Zürich, porque lá está sendo usado também o método de alisamento R13. A figura 2 mostra a correlação dos dois jogos de observação de setembro de 1986 a junho de 1989, quer dizer, do mínimo ao máximo. O fator de correlação de 0,997 é realmente surpreendente!
Figura 2
A figura 3 mostra a correspondência do máximo até agosto de 1991 e a
diminuição da atividade. A correlação é muito boa. O fator de correlação é de
0,956, mas a regressão linear é mais escarpada. Algo de incomum pode ter
acontecido com o Sol.
Figura 3
A explicação é simples: entre o mínimo e o máximo aparecem muito mais manchas grandes que depois do máximo. Para um certo número RZH, baseado em observações telescópicas, o olho nu pode perceber menos manchas depois do máximo do que antes dele. Considerando os fatores de correlação bem altos que dão uma grande certeza aos resultados, posso afirmar com grande confiança que o último máximo de atividade solar aconteceu realmente em junho de 1989.
Figura 4
A figura 4 mostra a correlação dos dois conjuntos de dados de agosto de
1991 até junho de 1994.
Qual é o tamanho de uma mancha solar para ser visível a olho nu? Há alguns
anos atrás, o nosso grupo solar da Sociedade Astronômica Suíça conduzia um teste
com vários observadores. O resultado destes testes, conduzidos por Th. Friedli e
H. U. Keller, mostra que:
- Para ser visível, a mancha solar deve ter um diâmetro de mais ou menos 24 segundos de arco, para a maioria dos observadores. Os três com visão mais aguda conseguiram ver manchas de 19 segundos de arco.
A experiência obtida durante as observações de manchas solares mostra os
fatos seguintes:
- Uma mancha fica visível a partir e até 60 do centro do disco, ou mesmo 65 para as grandes. Assim ela fica visível durante mais ou menos 9 dias dos 13,5 dias da sua passagem do leste ao oeste. A grande mancha do segundo trimestre de 1991 foi surpreendentemente visível durante 11 dias, devido à sua latitude alta de 32 N, na qual o período de rotação é maior do que no equador. Esta mancha foi visível durante três rotações do Sol, e durante este tempo ela retardou 10 em relação à rotação média do Sol (25 dias).
- Para a visibilidade, tanto a umbra como a penumbra contam. Manchas com pequenas umbras despedaçadas e uma penumbra extensa são visíveis também. É uma questão de contraste.
- A densidade do filtro tem uma certa influência. Este não deve ser escuro demais, ou claro demais. De modo geral, quando a transparência torna a imagem do Sol ligeiramente clara, a detecção das manchas é mais fácil. Naturalmente recomenda-se uma grande cautela.
A observação de manchas solares a olho nu parece ser um método anacrônico e
trivial. Mas ela tem alguns aspectos muito positivos:
- É melhor praticar, isto é, fazer astronomia, em vez de somente ler e discutir astronomia. Muitas vezes estas discussões conduzem, exagerando e para assim dizer, a discussões sobre o sexo dos anjos!
- Estas observações são muito importantes e úteis para a iniciação e a introdução na prática observacional. Mostram bem os problemas do trabalho no limite das possibilidades. Elas podem ser feitas durante o dia e não precisam de muito tempo. É por conseqüência um programa ideal para principiantes, tanto para indivíduos como para grupos.
- Estas observações dão mais valor e peso às observações da Antigüidade, visto que mostram a proporcionalidade entre ambas e o número de manchas de Zürich. Neste sentido, têm valor científico.
- É possível alargar-se o programa, anotando-se num desenho a posição da mancha, assim como a hora e a data da observação. Com a ajuda de um anuário contendo a inclinação do eixo de rotação do Sol (ângulo de posição e latitude), pode-se distinguir as manchas nos hemisférios norte e sul.
Na Europa, um grupo de observadores de manchas solares a olho nu formou a Rede A. São atualmente 50 observadores em seis países, inclusive alguns observadores dos Estados Unidos. Os resultados são publicados na revista especializada alemã SONNE.
Posso convidar vocês a participar da Rede A? Estamos ansiosos em reduzir para zero os dias sem observação por causa de nuvens. Por favor, dirija-se ao coordenador da Rede A:
| H. U. Keller Kolbenhofstrasse 33 CH-8045 Zurich Switzerland |
NOTA - Às vezes, quando o brilho do Sol é atenuado pela neblina, ou poeira no ar, as manchas podem ser vistas a olho nu e sem filtro nenhum, geralmente no nascer ou no pôr do Sol. O Sr. Keller está muito interessado nessas observações e pede que sejam comunicadas a ele, indicando as circunstâncias da observação.
Bibliografia
-von Karl, Ludwig Bath. Sonnenbeobachtung mit der
Lochkamera, Stern und Weltraum 7,1991
-History of oriental astronomy.
Proceedings of an International Astronomical Union. Colloquim n. 91, New Delhi,
India, 1985.
-Schaefer, Bradley E. Sunspot Visibility. Quartely Journal
Society 32, 1991.