Réplica de telescópio de Galileu

Fernando Vieira

Versão para imprimir

 

Introdução

Em 2009, Ano Internacional da Astronomia, celebramos o início da Astronomia telescópica. Embora Galileu não tenha inventado o telescópio, devemos a ele um grande número de descobertas feitas num intervalo de poucos meses entre 1609 e 1610: as luas de Júpiter, as crateras lunares, as fases de Vênus e as manchas solares. Além disso, ele notou que havia muito mais estrelas que aquelas que só eram visíveis a olho nu. Todas essas observações contribuíram para o abandono do modelo geocêntrico, vigente há séculos.

Esta data nos motivou a realizar um sonho antigo: construir uma réplica de um dos telescópios de Galileu. Existem dois telescópios cuja construção é atribuída a Galileu, que estão expostos no Istituto e Museo di Storia della Scienza, em Florença, Itália, e são catalogados como 2427 e 2428. Há ainda uma lente, objetiva, que fazia parte de um telescópio com o qual Galileu teria descoberto as luas de Júpiter. Essa lente se quebrou, provavelmente, nas mãos do próprio Galileu. Optamos por construir o telescópio “2427”.



Telescópios de Galileu

Metodologia

As características das lentes dos telescópios de Galileu estão disponíveis em muitas fontes, mas informações sobre os tubos são bem mais escassas. Como nosso objetivo era reproduzir o telescópio tão fielmente quanto possível, os dados dos tubos eram fundamentais. A escolha pelo “2427” foi em parte por haver alguma informação sobre este tubo, embora seu acabamento seja bem mais pobre que o do “2428”.

O trabalho mais complexo foi a fabricação das lentes. Não obstante já tenhamos experiência com o polimento de objetivas para telescópios, nunca havíamos polido lentes tão pequenas e com curvatura tão acentuada, como é o caso das oculares. A produção das duas lentes seguiu, basicamente, as etapas da confecção de espelhos para telescópios: corte do vidro, desbaste, alisado e polimento.

No começo do século XVII, a produção de lentes na Europa era relativamente comum. O mercado visava atender basicamente a confecção de óculos. A qualidade do vidro da época se assemelhava a um vidro comum de hoje. Desse modo, não tivemos nenhuma dificuldade em obtê-lo. As lentes eram produzidas por meio de algum tipo de máquina com discos de alta rotação, movidas a pedal ou manivela. Empregamos um motor elétrico.

A produção da objetiva foi relativamente simples. O mesmo não aconteceu com a lente ocular devido à curvatura acentuada e ao pequeno diâmetro do disco de vidro. A produção das duas lentes consumiu cerca de 50 horas.

Após o polimento a objetiva foi avaliada pelo teste de Foucault, mas não corrigida, pois este procedimento não era conhecido por Galileu.

O tubo do telescópio “2427” foi feito em madeira, consistindo de dois semicilindros escavados e unidos por fios de cobre. Completam o instrumento os suportes da objetiva e da ocular, também em madeira.



Lentes ocular e objetivas após o polimento



Chassis das lentes




Tubo do telescópio

Conclusão

Após o término da construção, o telescópio foi testado. Observamos os mesmos objetos que Galileu. A Lua mostrou bem as principais crateras e percebemos nitidamente a ausência delas nos mares. Conseguimos ver as três luas mais afastadas, mas não Io. Por projeção, observamos algumas manchas solares. Também notamos as fases de Vênus. Um aspecto que chamou nossa atenção foi o campo do telescópio ser muito pequeno, cerca de 15’, metade do diâmetro lunar. Isso se deve ao uso da ocular divergente e, em consequência, é difícil apontar para os alvos.

Recentemente, foi publicado o resultado de testes ópticos das lentes dos telescópios de Galileu “2427” e, graças a isso, constatamos que nossa lente apresenta qualidade um pouco inferior, com uma imperfeição zonal no centro.

Ao terminarmos este projeto, não conseguimos responder a duas questões. A primeira delas é: por que Galileu, conhecido por ser um exímio experimentador, não tentou empregar como ocular uma lente convergente, tão simples quanto a divergente para construir, mas com resultados muito melhores? Kepler, contemporâneo de Galileu, descreveu matematicamente o funcionamento do telescópio e sugeriu o uso das oculares convergentes. A outra dúvida é se Galileu empregou algum tripé ou algo parecido. Analisando os telescópios de Galileu, não se nota nenhuma marca que sugira que eles seriam presos a algum tipo de tripé. Talvez ele os utilizasse apoiados como demonstrado a foto.

A satisfação com este trabalho nos estimulou a construir outra réplica, agora a do “2428”, bem mais elaborada do que a do telescópio que construímos.

Referência: Texeraux, How to Make a Telescope, Willman-Bell, Inc., 1884.





Dados das lentes do telescópio "2427"
lente diâmetro abertura efetiva distância focal raio de curvatura (frente) raio de curvatura (atrás) espessura central
objetiva 51mm 26mm 1.330mm 2.700mm 950mm 2,5
ocular 26mm 11mm -94mm 0 48,5mm 3,0mm



Telescópio concluído